Polinizando ideias com: A poesia e o cérebro

drummond

Um estudo da Universidade de Liverpool, no Reino Unido, publicado pelo jornal “Daily Telegraph”, mostrou que ler poesia estimula o lado direito do cérebro onde são armazenadas as lembranças autobiográficas, ajuda a refletir sobre elas e entendê-las a partir de outra perspectiva. Esses estímulos se mantêm durante um tempo, potencializando a atenção do indivíduo.

De acordo com a publicação, os resultados mostram que a atividade cerebral se acelera muito quando o leitor encontra palavras incomuns ou frases com uma estrutura semântica complexa, mas não há reação quando o mesmo conteúdo é expresso em linguagem coloquial, com fórmulas de uso cotidiano.

Um livro pequeno e forte, pode ser um boa experiência para ampliação da sensibilidade. É o livro “Sentimento do Mundo” de Carlos Drummond de Andrade. A poesia a seguir faz parte dele:

Congresso Internacional do Medo

“Provisoriamente não cantaremos o amor,
que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos.
Cantaremos o medo, que esteriliza os abraços,
não cantaremos o ódio, porque este não existe,
existe apenas o medo, nosso pai e nosso companheiro,
o medo grande dos sertões, dos mares, dos desertos,
o medo dos soldados, o medo das mães, o medo das igrejas,
cantaremos o medo dos ditadores, o medo dos democratas,
cantaremos o medo da morte e o medo de depois da morte.
Depois morreremos de medo
e sobre nossos túmulos nascerão flores amarelas e medrosas.”

Carlos Drummond de Andrade

Livro: Sentimento do Mundo
Autor: Carlos Drummond de Andrade (1902-1987)
Editora: Companhia de Bolso

Polinizando ideias com: Sir Ernest Shackleton

endurance

Em tempos tão digitalmente conectados como os que vivemos, por vezes é bom mergulhar em um bom livro e refletir sobre a antevéspera destas conexões, num mundo que mal tinha inventado o telefone e no qual o rádio de ondas curtas ainda estava em lenta gestação.

Este belo livro desvela uma expedição inglesa ao Polo Sul realizada em plena primeira guerra mundial, no ano de 1915 e que por contar com o fotógrafo Frank Hurley a bordo, possibilitou que incríveis imagens em preto e branco façam deste livro um programa duplo. As fotos foram também uma das fontes de recursos para esta custosa expedição, pois os direitos sobre notícias e imagens foram vendidos antecipadamente à viagem para o jornal londrino Daily Chronicle.

A expedição e seus impressionantes problemas, sempre comandados com plena liderança de seu capitão Sir Ernest Shackleton, é narrada de forma contundente logo na página inicial do primeiro capítulo, em trecho retirado do Diário de Bordo do Endurance, descrevendo a situação após o navio ficar preso no gelo antártico na latitude 74° Sul:

“Está quase no fim… O navio não vai aguentar esta vida, comandante. É melhor se preparar, pois é só uma questão de tempo. Ainda pode levar meses, só algumas semanas, ou mesmo dias… mas quando o gelo prende, o gelo não larga mais.”

É um livro que permite refletir sobre liderança em situações extremamente difíceis e, ao mesmo tempo, vislumbrar uma história verdadeira de homens e imagens impressionantes.

Livro: Endurance – A lendária expedição de Shackleton à Antártida
Autora: Caroline Alexander
Editora: Companhia das Letras

Foto: Frank Hurley

Polinizando ideias com: HAIKAI

HAIKAI

O Haikai é um poema breve, de origem japonesa, (Haiku no original japonês) escrito em linguagem simples, sem rima, estruturado em três versos que somam dezessete sílabas poéticas; cinco sílabas no primeiro verso, sete no segundo e cinco no terceiro. Um dos maiores poetas japoneses é Bashô (1644-1694). Foi ele quem codificou e estabeleceu as bases do tradicional haikai japonês. O que o haikai busca é exprimir a experiência direta do poeta com o mundo ao seu redor, em alguns poucos elementos simples.

Um dos discípulos de Bashô escreveu um forte haikai:

Uma libélula rubra.
Tiro-lhe as asas:
Uma pimenta.

Bashô, com uma simples modificação dos termos, o tornou exemplo de criação:

Uma pimenta.
Coloco-lhe asas:
Uma libélula rubra.

Com a chegada de grande número de japoneses no Brasil, iniciada com o navio Kasato Maru, que aportou em Santos-SP em 1908, o estilo conquistou poetas brasileiros, que o deixaram menos rígido em sua métrica.

Millôr Fernandes foi um grande adepto do formato haikai:

Esnobar
É exigir café fervendo
E deixar esfriar.

Paulo Leminiski é outro grande escritor brasileiro a se apaixonar pelo Haikai:

Se pra dar certo tem que seguir a risca,
Por que você não segue
E arrisca.