Polinizando ideias: Niketche, uma história de poligamia

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Este livro, da escritora moçambicana Paulina Chiziane, tem o poder de descrever, de forma atraente e sem rodeios, a cultura moçambicana principalmente no que se aplica ao modus vivendi das mulheres.

Em uma história que poderia ser baseada em fatos reais, ela desenha com todas as fortes cores moçambicanas, o cenário de penúria, dor, abandono e desprezo comuns ao cotidano feminino de algumas regiões de moçambique.

Mostra também, o quanto as mulheres da região norte do país, pertencentes ao povo Macua são completamente diferentes. São poderosas, dominam o regime de relação, que é matriarcal e sabem muito bem o que querem e como querem.

Caminhar pelo enredo desta história, tão diferente e tão igual ao cotidiano de muitos homens e mulheres de outras partes do mundo, faz pensar sobre o quanto a passividade, ou seja, a incapacidade de perceber e defender os próprios direitos, ajuda a construir mazelas e infelicidade mundo afora. Além de fazer refletir sobre a tão “moderna” questão da diversidade que afeta todas as relações, dentro e fora das organizações.

Livro: Niketche, uma história de poligamia
Autora: Paulina Chiziane
Editora: Companhia das Letras

Polinizando Ideias: Malangatana, a alma do seu povo em suas obras.

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Malangatana Ngwenya é um artista do mundo, nascido em Moçambique (1936-2011). Ele é reconhecido mais fortemente por suas pinturas, mas enveredou também por outros campos da arte como a música, o teatro, o cinema, a poesia, a escultura, a cerâmica, a tapeçaria e a dança.

Quando criança, sua mãe afiava dentes para os adolescentes, o que era moda naquela época e seu pai era mineiro na África do Sul. Recebeu sua primeira aula de pintura em um clube onde trabalhava como pegador de bolinhas de tênis em Maputo – capital de Moçambique. Seu mestre não foi um pintor profissional, mas sim um biólogo português, que lhe ofereceu materiais para que experimentasse pintar e, ao perceber o talento do menino, decidiu ajudá-lo a vender seus primeiros quadros. Em seguida, o arquiteto também português, Pancho Guedes, lhe disponibilizou um espaço adequado à pintura na garagem da sua casa.

Em 1960, Malangatana levou sua família para morar com ele em uma casa que comprara com o dinheiro dos primeiros quadros vendidos.

Sua arte interliga pessoas com a natureza e conta a história de sua gente, de sua terra. Mostra a opressão que sofriam por serem colônia de Portugal e, depois, os horrores da guerra civil. A paz também é refletida em seus momentos mais otimistas.

Suas obras correu o mundo e estão em países como: Portugal, Alemanha, Áustria, Bulgária, Chile, Brasil, Angola, Cuba, Estados Unidos, Índia, entre outros. Malangatana produziu ainda murais em Moçambique, na África do Sul, Suazilândia, Suécia e Colômbia.

Ajudou a criar muitas das instituições culturais que ainda estão em ação em Moçambique. Usou seu sucesso na arte em prol do desenvolvimento das crianças e do povo. Em 1984 a ONU-Organização das Nações Unidas o convidou para fazer parte do movimento “Artistas do Mundo contra o Apartheid”, em 1990 foi um dos fundadores do “Movimento Moçambicano para a Paz”. Patrocinou a escola “Vamos Brincar”, para que as crianças aprendessem a pintar e, por esse empenho com uma vida melhor para as crianças, foi nomeado Artista pela Paz pela Unesco, em 1997. Ele foi também um dos criadores do Museu Nacional de Arte de Moçambique e do Centro Cultura Malatana, cidade onde nasceu.

O poder transformador da arte foi utilizado na totalidade por Malangatana, que conseguiu movimentos, ações e obras que estão praticamente no campo do impossível, se consideradas as condições econômicas de seu país natal. Ele é referendado e não apenas por suas características artísticas e intelectuais, mas por nunca ter perdido o dom da simplicidade.

Para saber mais: http://noticias.sapo.mz/especial/malangatana/

Polinizando ideias: Mulheres de Cinzas – Mia Couto

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Mia Couto é um escritor Moçambicano, autor de mais de trinta livros entre prosa e poesia. No seu mais recente trabalho, inaugura uma trilogia que se chama “Areias do Imperador” e conta, com a ajuda de dois narradores, uma história de ficção baseada em fatos reais de um período onde Moçambique ainda era colônia de Portugal e também era atacado por um exército africano.

Um dos narradores é uma mocinha moçambicana, que fala fluentemente o português, aprendido em uma escola de freiras e o outro, um sargento português que presta serviços em Moçambique, após ter sido desterrado de Portugal por manifestar-se a favor da república e, portanto, contra o regime monarquista vigente então.

Não há como não refletir sobre as agruras que o colonialismo provocou e mais que tudo, sobre a arrogante postura dos brancos sobre os negros, como se o conhecimento europeu fosse o único válido e a poética forma dos africanos lidarem com a natureza e dela fazer sua forma de viver, passava desapercebida ou incompreensível aos colonizadores e a outros brancos (provavelmente para muitos continua sendo considerada incompreensível ou irrelevante até os dias atuais).

Uma passagem que dá alguma prova disto é uma conversa entre a narradora de nome Imani e uma italiana que, no livro, morava em Moçambique e se chamava Bianca Marini:

– Sabes a história deste rio? Perguntou-me a europeia.

E sem esperar que eu respondesse foi dizendo que Vasco da Gama já lhe havia dado um nome, o de Rio do Cobre. (…)

A italiana falou dos nomes que o rio tinha. Quando ela os enunciou, senti-me incomodada. Porque falava como se as águas do Inharrime lhe pertencessem. A verdade é que Bianca está longe de saber como nasceram aqueles rios. Ocupada em lhes dar nomes, escapou-lhe a história. Não sabe a italiana que no princípio de tudo, quando a terra ainda não tinha donos, os rios e as nuvens corriam por debaixo do chão. Chegou o demônio e espetou o dedo na areia. A sua unha comprida esgravatou nas profundezas. Procurava pedras que brilhassem à luz do Sol. (…) Pela primeira vez no ventre da Terra se coagulou o contaminado sangue do demônio. As riquezas do subsolo estavam amaldiçoadas. As nuvens e os rios abandonaram o ventre do planeta para escaparem dessa maldição. E tornaram-se as veias e os cabelos da Terra.

Esta é a história dos rios. Poderão roubar a sua água até secarem. Mas não roubarão a sua história.

Respeito, por conhecer e relevar a história do outro, seja no ambiente de trabalho, seja nos vários ambientes da vida é o que possibilitará à raça humana tornar-se menos agressiva, mais interativa e, aproveitando-se do saber de todos, construir juntos um futuro que seja bom para o planeta e todas as espécies que nele habitam.

Livro: “Mulheres de Cinzas” – Livro 1 da Trilogia “As areias do imperador”
Autor: Mia Couto
Editora: Companhia das Letras
Ano da Edição: 2015